A CRISE
DE JÓ: QUANDO VIVER SE TORNA INSUPORTÁVEL
Textos: Jó 14:7-9; 38:1; 42:1-6,10-12.
Jó 14:7-9
⁷
Porque há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, ainda se renovará, e
não cessarão os seus rebentos.
⁸ Se
envelhecer na terra a sua raiz, e no chão morrer o seu tronco,
⁹ ao
cheiro das águas brotará e dará ramos como a planta nova.
Jó 38:1
¹
Depois disto, o Senhor, do meio de um redemoinho, respondeu a Jó:
Jó 42:1-6,10,12-17
¹
Então, respondeu Jó ao Senhor:
² Bem
sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado.
³ Quem
é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade,
falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu
não conhecia.
⁴
Escuta-me, pois, havias dito, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me
ensinarás.
⁵ Eu te
conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem.
⁶ Por
isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.
¹⁰ Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando
este orava pelos seus amigos; e o Senhor deu-lhe o dobro de tudo o que antes
possuíra.
¹² Assim,
abençoou o Senhor o último estado de Jó mais do que o primeiro; porque veio a
ter catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas.
¹²
Assim, abençoou o Senhor o último estado de Jó mais do que o primeiro; porque
veio a ter catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil
jumentas.
¹³
Também teve outros sete filhos e três filhas.
¹⁴
Chamou o nome da primeira Jemima, o da outra, Quezia, e o da terceira,
Quéren-Hapuque.
¹⁵ Em
toda aquela terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas de Jó; e
seu pai lhes deu herança entre seus irmãos.
¹⁶
Depois disto, viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos e aos filhos
de seus filhos, até à quarta geração.
¹⁷
Então, morreu Jó, velho e farto de dias.
Introdução:
Graça e Paz amados! Eu quero iniciar com vocês uma nova série de mensagens que
tem como tema principal a FÉ. Mas não vou falar de uma fé que não se abala,
pelo contrário, vou falar sobre uma FÉ QUE ENTRA EM CRISE.
Antes de tudo é importante sabermos como a bíblia define
a fé:
Hebreus 11:1 | ARA
¹ Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a
convicção de fatos que se não veem.
Se
a fé tem a ver com certeza de coisas que se esperam, e convicção de fatos que
não se veem, quando a nossa fé entra em crise, ela deixa de ser apenas uma
certeza automática e se transforma em um profundo questionamento sobre o sentido da vida, o
sofrimento ou a presença de Deus.
Quando a nossa fé entra em crise perdemos a convicção dos fatos que não se veem e nos apegamos apenas àquilo que é
visível e palpável.
O que
provoca a crise em nossa fé?
·
Dor e sofrimento: A perda de alguém querido,
uma doença grave ou injustiças fazem a pessoa questionar a justiça ou o amor
divino.
·
Silêncio de Deus: A sensação de que as orações
não são ouvidas ou respondidas gera um vazio e distanciamento.
·
Frustração com instituições:
Escândalos ou falhas humanas em comunidades religiosas abalam a confiança
naquilo que era visto como exemplo.
·
Mudança de visão: Novas descobertas
intelectuais ou científicas confrontam ensinamentos rígidos recebidos na
infância.
O problema é que muitos de nós costumamos imaginar
a vida de fé como ausência de problemas e como um currículo cheio de vitórias
compartilhadas nas redes sociais. No entanto quando você lê a
bíblia do inicio ao fim você irá se deparar com pessoas de fé que vivenciaram crises
reais. Pessoas que chegaram ao desespero, que duvidaram em algum momento das
promessas de Deus e outras que foram tentadas a desistir de sua fé.
A Palavra de Deus não apenas
reconhece a crise na vida do justo, com também registra suas dores, seus
gemidos, lágrimas e perguntas que não encontraram resposta imediata. A Escritura
nasce da convicção de que a jornada de fé não contorna o vale; ela o atravessa. Deus se revela em meio à crise, mas nem sempre se
explica; Ele se aproxima, mas nem sempre remove de imediato o espinho.
Tendo este contexto em mente, hoje eu quero falar
sobre Jó.
“A história do homem de Uz não
pretende relativizar sua dor; ela apenas revela que o sofrimento nem sempre é
recibo de culpa, nem ausência automática de Deus. Há realidades que não cabem
em fórmulas — e isso não invalida a fé, apenas a torna mais honesta”. Escritor Jobe Vieira –
Enxertados
Quem era Jó?
Segundo a declaração do
próprio Deus Jó era “irrepreensível, íntegro, temente a Deus e que se
desviava do mal” (Jó 1.1).
Ele era também um Pai temente
e que exercia um papel de sacerdote do seu lar. Antes do
amanhecer, conforme o que diz no vers. 5, ele oferecia sacrifícios em favor dos
filhos “pois dizia: ‘Talvez meus filhos tenham pecado…’ ” (1.5)
J
ó também era muito próspero. A
prosperidade que desfrutava, rebanhos numerosos, servos leais, dez filhos que
celebravam juntos, reforçava a ideia de que a fidelidade sempre desemboca em
bênçãos visíveis.
Até que o imprevisível aconteceu. Num único dia, mensageiros
sucessivos relataram assaltos, mortes e perda de todos os bens; a última
notícia trouxe o luto: um vento do deserto derrubara a casa onde os filhos
festejavam, matando cada um deles (1.13-19)
Logo depois, úlceras cobriram o corpo de Jó “da planta do
pé ao alto da cabeça” (2.7). Sentado no pó, ele raspou as feridas com um caco
de cerâmica; a devoção que antes parecia sólida
encontrou o silêncio absoluto do céu.
Por
conta de suas perdas ele entra em depressão de tal maneira que ele deseja nem
ter nascido: “Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela?” Jó
3.11.
Entender porque Jó
desejou a morte é até compreensível diante de um sofrimento intenso e real que
ele passou!
A sua mulher, que também sofria com ele a mesma
desventura reage: “Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa
a Deus e morre” (2.9).
O isolamento
torna-se mais profundo: o companheirismo conjugal, que em outros dias
oferecia suporte, agora questiona a viabilidade da fé.
No espaço de pouco
tempo, Jó perde trabalho, status, sustento, filhos, saúde e apoio emocional. A narrativa não oferece
explicação humana e, até aqui, Deus permanece em silêncio. E aí aparecem neste
cenário (Jó 2:11) os amigos de Jó que
tentam consolá-lo em sua dor:
Jó 2:11 | ARA
¹¹ Ouvindo, pois,
três amigos de Jó todo este mal que lhe sobreviera, chegaram, cada um do seu
lugar: Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita; e combinaram
ir juntamente condoer-se dele e consolá-lo.
Conforme o verso 13 eles se sentam com ele em terra
e ficam 7 dias e noites totalmente mudos. Um gesto raro de empatia.
Quando decidem falar, eles falam o que a maioria das
pessoas falam, inclusive crentes. Para todos, a equação
continua simples: dor é sentença (punição,
juízo divino); a prosperidade é recompensa.
- Será que os discursos dos
amigos de Jó lhe trouxeram consolo?
Jó 19:2 |
ARA
² Até quando
afligireis a minha alma e me quebrantareis com palavras?
Jó, cada vez mais isolado,
insiste em que Deus lhe dê audiência.
Que
lições podemos aprender através da crise de Jó para que a nossa fé não venha
desfalecer?
1- A PRIMEIRA LIÇÃO DE JÓ É A LIBERDADE DE LAMENTAR SEM
PERDER O VÍNCULO COM DEUS.
O livro inteiro prova que orações podem nascer em
forma de queixa, perguntas podem ser dirigidas ao céu sem que isso anule a
reverência.
A oração toma a forma de
queixa, mas ainda é oração.
O desabafo é, portanto,
ato de fé!
Precisamos crer que Deus suporta a honestidade das
nossas perguntas e é suficientemente bom para ouvir o que nenhum outro ouvinte
suportaria. Se o lamento e a queixa eram permitidos ao homem que
Deus chamou de “servo fiel”, também é permitido a você.
2- A SEGUNDA LIÇÃO
DE JÓ É RECONHECER O LIMITE DA PRÓPRIA PERSPECTIVA.
O
silêncio divino que cercava cada noite de Jó termina com o estalo de um trovão.
“Então o Senhor respondeu a Jó do meio
de um redemoinho”
(Jó 38.1).
Não
chega um anjo, não aparece uma tábua de explicações; vem um turbilhão, o tipo
de vento que varre as certezas e obriga o coração a prestar atenção.
O
interessante aqui é que Deus não responde, mas pergunta: (Ler do verso 4 ao 10)
Jó 38:4-10 |
ARA
⁴ Onde estavas tu, quando eu lançava os
fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento.
⁵ Quem lhe pôs as medidas, se é que o
sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel?
⁶ Sobre que estão fundadas as suas
bases ou quem lhe assentou a pedra angular,
⁷ quando as estrelas da alva, juntas,
alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?
⁸ Ou quem encerrou o mar com portas,
quando irrompeu da madre;
⁹ quando eu lhe pus as nuvens por
vestidura e a escuridão por fraldas?
¹⁰ Quando eu lhe tracei limites, e lhe
pus ferrolhos e portas,
Até
o final deste capítulo Deus continua perguntando a Jó. Cada
pergunta desmonta a ilusão de que o universo se encaixa em esquemas humanos.
Jó
não é humilhado pelo sarcasmo de Deus, mas pela vastidão: descobre-se minúsculo
diante de um Deus que governa o universo!
As perguntas de
Deus no redemoinho deslocam o olhar de Jó do micro para o macro, da ferida
imediata para o vasto tecido da criação.
Deus
não minimiza a dor dele; mostra apenas que existe um horizonte maior do que a
sua dor. A
dor pessoal não some, mas agora existe dentro dele um quadro que ultrapassa
suas fronteiras.
Na
verdade Deus não explicou o sofrimento; mas, revelou-Se maior que ele.
3- A TERCEIRA A
LIÇÃO DE JÓ É QUE A RESTAURAÇÃO INTERNA COMEÇA ANTES DE
QUALQUER MUDANÇA EXTERNA.
A
cura de Jó tem início no encontro com Deus, não na resposta às suas perguntas.
A
virada não está no recebimento de respostas, mas no encontro com alguém que
transforma o coração antes de transformar as circunstâncias. O Deus que parecia
ausente mostra-Se presente de modo avassalador, e a fé, que começou ferida,
termina vendo.
Jó 42:1-6| ARA
¹ Então, respondeu Jó ao Senhor:
² Bem sei que tudo podes, e nenhum dos
teus planos pode ser frustrado.
³ Quem é aquele, como disseste, que sem
conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; coisas
maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia.
⁴ Escuta-me, pois, havias dito, e eu
falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás.
⁵ Eu te conhecia só de ouvir, mas agora
os meus olhos te veem.
⁶ Por isso, me abomino e me arrependo
no pó e na cinza.
Quando
Jó confessa — “Eu Te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos
Te veem” (Jó 42.5) —
não está dizendo que antes ignorava Deus, e sim que a relação dele com o
Altíssimo até aquele momento eram superficiais.
Deus
responde ao sofrimento não primariamente com teoria, mas com manifestação da
sua presença.
Portanto, a pergunta que fica não é “Por que sofro?”, mas “Quem me acompanha no sofrimento?”. A mesma voz que falou do
redemoinho agora fala por meio do Espírito (Rm 8.26-27) e afirma que nada — nem
morte nem vida, nem presente nem futuro — pode nos separar do amor de Deus em
Cristo Jesus (Rm 8.38-39).
Caminhar
com essa certeza não anula o luto; transforma-o em semente de esperança.
CONCLUSÃO:
A cura de Jó tem início no encontro – não na resposta – e se aprofunda quando
ele ora pelos amigos que o feriram.
Jó 42:10
¹⁰
Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o Senhor
deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra.
Nas
horas mais áridas, o ato de interceder por alguém, de estender cuidado mesmo ferido,
pode abrir fendas por onde a graça volta a circular. Nem sempre virão
explicações. Mas a presença de Deus, quando percebida, basta para sustentar
passos que pareciam impossíveis.
Oração:
Pai, há momentos em que o peso do que perdemos é
maior que as palavras disponíveis. Levamos-Te agora esse silêncio doído — tão
parecido com o de Jó — e o colocamos aos Teus pés.
Tu és o Deus que acolhe perguntas sem pressa de
respondê-las, o Deus que se aproxima no redemoinho e transforma a nossa visão
antes de transformar a situação.
Que o encontro contigo seja maior do que a
explicação que desejamos. Renova-nos a capacidade de confiar na Tua bondade
quando a matemática da existência não fecha; faz brotar em nós aquela fé que
sabe esperar até que os Teus caminhos, por fim, se revelem.
Em nome de Jesus.
Pr. Gilberto Oliveira Rehder
Igreja Metodista Catalão-GO